Resumo: Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil
O texto de Bacha e Bonneli, publicado em 2005, analisa a experiência brasileira de crescimento, voltado para contabilizá-lo através da expressão de uma igualdade entre poupança e investimento.
A observação do colapso econômico deve retroagir até a trajetória de industrialização por substituição de importações que duraria até a década de 1980. Repara-se que houve um aumento substancial do custo relativo do capital, enquanto diminuiu a produtividade do capital desde meados dos anos 70. Embora seja justo notar a adoção mundial de processos de produção mais intensivo em capital, o declínio conseqüente da produtividade do capital se associou, no Brasil, com um forte aumento do preço relativos dos bens de investimento. A abertura política do regime militar foi acompanhada de uma indexação salarial aperfeiçoada e se iniciou no governo Geisel. Uma demanda doméstica excessiva e a indexação de preços e salários levaram a aumentos substanciais da inflação e da dívida externa, culminando em moratória da dívida. A Constituição populista de 1988 contribuiu para a ingovernabilidade do país, seguindo-se o congelamento de ativos financeiros implantado pelo governo Collor. O controle da hiperinflação pelo Plano Real possibilitou o desvio do tradicional modelo de substituição de importações, mas, todavia, uma política fiscal frouxa e uma dependência excessiva na âncora cambial não favoreceram as exportações nem os investimentos privados, proporcionando uma crise financeira que traria o Brasil para uma política macroeconomia mais sensata, mantida pelo presidente Lula após 2003: superávit fiscal primário elevado; política monetária de metas para a inflação; taxa de câmbio flutuante. Entretanto, não foi possível a acumulação de capital devido à seqüência de choques adversos.
Passando para a análise do crescimento do PIB, observa-se que a acumulação de capital é um bom ponto de partida. Observando-se os dados brasileiros, nota-se que ambos os fatores estão fortemente relacionadas, sendo, entretanto, a taxa de crescimento do PIB muito mais volátil.
A taxa de poupança é relacionada negativamente com todas as variáveis relacionadas ao crescimento. Esta é a conclusão mais forte da contabilização do acumula de capital. Observa-se ainda que o preço relativo do investimento e a relação entre produto e o capital-em-uso estão com correlação mais estreita nas séries analisadas, seguindo-se a taxa de crescimento de estoque de capital e o preço relativo do investimento.
A poupança, por si mesma não consegue explicar o colapso na taxa de crescimento do PIB a partir de 1980. Embora fosse uma candidata óbvia para explicar o colapso da acumulação de capital, observa-se que pouca relação tem com este fato após 1980. Deve-se notar ainda que o comportamento da taxa de poupança no período de 1987-89 contraria a realidade econômica de um período turbulento, o que poderia apontar um erro na medida da poupança nominal, mas isto não é explorado neste texto.
O aumento do preço relativo do investimento é uma anomalia brasileira numa perspectiva mundial, observada sua relação. Seriam explicações: o aumento do poder oligárquico em indústrias produzindo tanto bens finais como bens intermediários de investimento; ineficiências no processo de produção de bens de capital, na medida em que cada vez mais bens previamente importados passaram a ser produzidos domesticamente; maior demanda por bens duráveis como forma de proteção contra a hiperinflação e os riscos de moratória financeira; comportamento defensivo de preço dos oligopolistas, em face de atrasos no pagamento das compras governamentais em um cenário de aceleração da inflação; e erro na medida de índices de preços, por superestimativa do aumento dos preços no período hiperinflacionário. Estes fatores influenciaram diferentemente nos diversos períodos, sendo os dois primeiros mais perceptíveis até o início dos anos 80 e os demais mais fortemente após a inflação ter saído de controle. O último fator é sugerido por não ter havido diferença substancial dos índices após 1994.
Em relação ao declínio da relação produto-capital utilizado no Brasil, existem três hipóteses plausíveis: ineficiência no processo de substituição de importações; tendência mundial de aumento da intensidade do uso do capital; e ajustamento de longo prazo a uma taxa de poupança mais elevada. Quanto à primeira, observa-se o processo altamente protegido, acompanhado de um padrão de industrialização oligopolista com forte presença de empresas públicas, expressa uma correlação negativa entre o capital-em-uso e o preço relativo do investimento. A segunda se percebe da sobreposição das relações produto-capital Brasil e no Mundo, sendo sempre menor para o país. A terceira é confirmada pelo modelo de Solow-Swan, sugerindo o mergulho do crescimento iniciado ainda na década de 1970, tendo levado 19 anos para fechar a metade do hiato entre o capital-em-uso observado e seu correspondente valor de equilíbrio estacionário.
O último componente da explicação para a frustração do crescimento brasileiro é um declínio no grau médio de utilização da capacidade. Parece que a partir dos anos 80, a economia brasileira foi incapaz de retomar um estado de plena utilização da capacidade. Isto não poderia ter ocorrido por falta de demanda efetiva, pois é sabido que houve uma forte demanda doméstica que acelerou tanto o processo inflacionário como o de endividamento externo. Como explicação, aponta-se: o aumento das taxas requeridas (tanto de retorno do capital como taxa de juros) pela seqüência de moratórias; o aumento de impostos a partir dos anos 90; e a Constituição de 1988 e as decisões legislativas e judiciárias subseqüentes que agravaram a precariedade do sistema de regulação econômica e as incertezas sobre as relações contratuais.
Parece ser a principal razão da depressão na acumulação de capitais nos vinte anos anteriores o aumento do preço relativo do investimento, reduzindo fortemente o poder de compra da poupança, reparando-se que esta foi uma peculiaridade brasileira, provavelmente relacionada ao isolamento econômico pós-1974. Deve-se observar ainda que, no período posterior a implantação do Plano Real, a contribuição do trabalho bruto é pequena, associado principalmente a uma reduzida absorção de mão-de-obra, explicado pelo não acompanhamento do ritmo de acumulação de capital ao progresso técnico, gerando, portanto, menos oportunidades de emprego.
Por fim, ressalta-se que as conclusões sobre o potencial de desenvolvimento brasileiro variam de acordo com o modelo utilizado, mas é certo que na medida em que a inflação convirja para a meta de longo prazo do governo, haverá espaço para um crescimento liderado pela demanda. Impacto importante poderia ter uma maior abertura para a importação de bens de capital, juntamente com políticas pró-concorrência. De toda a maneira, até que o Brasil consiga desenvolver um mercado de capitais de longo prazo, a necessidade de empréstimos em dólares não deve desaparecer, observando-se ainda a necessidade de redução das incertezas jurisdicionais para o incentivo ao crescimetno.
BACHA, E.L. e BONNELI, R. “Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil” Revista de Economia Política. 253 jul/set 2005.
A observação do colapso econômico deve retroagir até a trajetória de industrialização por substituição de importações que duraria até a década de 1980. Repara-se que houve um aumento substancial do custo relativo do capital, enquanto diminuiu a produtividade do capital desde meados dos anos 70. Embora seja justo notar a adoção mundial de processos de produção mais intensivo em capital, o declínio conseqüente da produtividade do capital se associou, no Brasil, com um forte aumento do preço relativos dos bens de investimento. A abertura política do regime militar foi acompanhada de uma indexação salarial aperfeiçoada e se iniciou no governo Geisel. Uma demanda doméstica excessiva e a indexação de preços e salários levaram a aumentos substanciais da inflação e da dívida externa, culminando em moratória da dívida. A Constituição populista de 1988 contribuiu para a ingovernabilidade do país, seguindo-se o congelamento de ativos financeiros implantado pelo governo Collor. O controle da hiperinflação pelo Plano Real possibilitou o desvio do tradicional modelo de substituição de importações, mas, todavia, uma política fiscal frouxa e uma dependência excessiva na âncora cambial não favoreceram as exportações nem os investimentos privados, proporcionando uma crise financeira que traria o Brasil para uma política macroeconomia mais sensata, mantida pelo presidente Lula após 2003: superávit fiscal primário elevado; política monetária de metas para a inflação; taxa de câmbio flutuante. Entretanto, não foi possível a acumulação de capital devido à seqüência de choques adversos.
Passando para a análise do crescimento do PIB, observa-se que a acumulação de capital é um bom ponto de partida. Observando-se os dados brasileiros, nota-se que ambos os fatores estão fortemente relacionadas, sendo, entretanto, a taxa de crescimento do PIB muito mais volátil.
A taxa de poupança é relacionada negativamente com todas as variáveis relacionadas ao crescimento. Esta é a conclusão mais forte da contabilização do acumula de capital. Observa-se ainda que o preço relativo do investimento e a relação entre produto e o capital-em-uso estão com correlação mais estreita nas séries analisadas, seguindo-se a taxa de crescimento de estoque de capital e o preço relativo do investimento.
A poupança, por si mesma não consegue explicar o colapso na taxa de crescimento do PIB a partir de 1980. Embora fosse uma candidata óbvia para explicar o colapso da acumulação de capital, observa-se que pouca relação tem com este fato após 1980. Deve-se notar ainda que o comportamento da taxa de poupança no período de 1987-89 contraria a realidade econômica de um período turbulento, o que poderia apontar um erro na medida da poupança nominal, mas isto não é explorado neste texto.
O aumento do preço relativo do investimento é uma anomalia brasileira numa perspectiva mundial, observada sua relação. Seriam explicações: o aumento do poder oligárquico em indústrias produzindo tanto bens finais como bens intermediários de investimento; ineficiências no processo de produção de bens de capital, na medida em que cada vez mais bens previamente importados passaram a ser produzidos domesticamente; maior demanda por bens duráveis como forma de proteção contra a hiperinflação e os riscos de moratória financeira; comportamento defensivo de preço dos oligopolistas, em face de atrasos no pagamento das compras governamentais em um cenário de aceleração da inflação; e erro na medida de índices de preços, por superestimativa do aumento dos preços no período hiperinflacionário. Estes fatores influenciaram diferentemente nos diversos períodos, sendo os dois primeiros mais perceptíveis até o início dos anos 80 e os demais mais fortemente após a inflação ter saído de controle. O último fator é sugerido por não ter havido diferença substancial dos índices após 1994.
Em relação ao declínio da relação produto-capital utilizado no Brasil, existem três hipóteses plausíveis: ineficiência no processo de substituição de importações; tendência mundial de aumento da intensidade do uso do capital; e ajustamento de longo prazo a uma taxa de poupança mais elevada. Quanto à primeira, observa-se o processo altamente protegido, acompanhado de um padrão de industrialização oligopolista com forte presença de empresas públicas, expressa uma correlação negativa entre o capital-em-uso e o preço relativo do investimento. A segunda se percebe da sobreposição das relações produto-capital Brasil e no Mundo, sendo sempre menor para o país. A terceira é confirmada pelo modelo de Solow-Swan, sugerindo o mergulho do crescimento iniciado ainda na década de 1970, tendo levado 19 anos para fechar a metade do hiato entre o capital-em-uso observado e seu correspondente valor de equilíbrio estacionário.
O último componente da explicação para a frustração do crescimento brasileiro é um declínio no grau médio de utilização da capacidade. Parece que a partir dos anos 80, a economia brasileira foi incapaz de retomar um estado de plena utilização da capacidade. Isto não poderia ter ocorrido por falta de demanda efetiva, pois é sabido que houve uma forte demanda doméstica que acelerou tanto o processo inflacionário como o de endividamento externo. Como explicação, aponta-se: o aumento das taxas requeridas (tanto de retorno do capital como taxa de juros) pela seqüência de moratórias; o aumento de impostos a partir dos anos 90; e a Constituição de 1988 e as decisões legislativas e judiciárias subseqüentes que agravaram a precariedade do sistema de regulação econômica e as incertezas sobre as relações contratuais.
Parece ser a principal razão da depressão na acumulação de capitais nos vinte anos anteriores o aumento do preço relativo do investimento, reduzindo fortemente o poder de compra da poupança, reparando-se que esta foi uma peculiaridade brasileira, provavelmente relacionada ao isolamento econômico pós-1974. Deve-se observar ainda que, no período posterior a implantação do Plano Real, a contribuição do trabalho bruto é pequena, associado principalmente a uma reduzida absorção de mão-de-obra, explicado pelo não acompanhamento do ritmo de acumulação de capital ao progresso técnico, gerando, portanto, menos oportunidades de emprego.
Por fim, ressalta-se que as conclusões sobre o potencial de desenvolvimento brasileiro variam de acordo com o modelo utilizado, mas é certo que na medida em que a inflação convirja para a meta de longo prazo do governo, haverá espaço para um crescimento liderado pela demanda. Impacto importante poderia ter uma maior abertura para a importação de bens de capital, juntamente com políticas pró-concorrência. De toda a maneira, até que o Brasil consiga desenvolver um mercado de capitais de longo prazo, a necessidade de empréstimos em dólares não deve desaparecer, observando-se ainda a necessidade de redução das incertezas jurisdicionais para o incentivo ao crescimetno.
BACHA, E.L. e BONNELI, R. “Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil” Revista de Economia Política. 253 jul/set 2005.
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