03 Março 2008

Resumo: Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil

O texto de Bacha e Bonneli, publicado em 2005, analisa a experiência brasileira de crescimento, voltado para contabilizá-lo através da expressão de uma igualdade entre poupança e investimento.

A observação do colapso econômico deve retroagir até a trajetória de industrialização por substituição de importações que duraria até a década de 1980. Repara-se que houve um aumento substancial do custo relativo do capital, enquanto diminuiu a produtividade do capital desde meados dos anos 70. Embora seja justo notar a adoção mundial de processos de produção mais intensivo em capital, o declínio conseqüente da produtividade do capital se associou, no Brasil, com um forte aumento do preço relativos dos bens de investimento. A abertura política do regime militar foi acompanhada de uma indexação salarial aperfeiçoada e se iniciou no governo Geisel. Uma demanda doméstica excessiva e a indexação de preços e salários levaram a aumentos substanciais da inflação e da dívida externa, culminando em moratória da dívida. A Constituição populista de 1988 contribuiu para a ingovernabilidade do país, seguindo-se o congelamento de ativos financeiros implantado pelo governo Collor. O controle da hiperinflação pelo Plano Real possibilitou o desvio do tradicional modelo de substituição de importações, mas, todavia, uma política fiscal frouxa e uma dependência excessiva na âncora cambial não favoreceram as exportações nem os investimentos privados, proporcionando uma crise financeira que traria o Brasil para uma política macroeconomia mais sensata, mantida pelo presidente Lula após 2003: superávit fiscal primário elevado; política monetária de metas para a inflação; taxa de câmbio flutuante. Entretanto, não foi possível a acumulação de capital devido à seqüência de choques adversos.

Passando para a análise do crescimento do PIB, observa-se que a acumulação de capital é um bom ponto de partida. Observando-se os dados brasileiros, nota-se que ambos os fatores estão fortemente relacionadas, sendo, entretanto, a taxa de crescimento do PIB muito mais volátil.
A taxa de poupança é relacionada negativamente com todas as variáveis relacionadas ao crescimento. Esta é a conclusão mais forte da contabilização do acumula de capital. Observa-se ainda que o preço relativo do investimento e a relação entre produto e o capital-em-uso estão com correlação mais estreita nas séries analisadas, seguindo-se a taxa de crescimento de estoque de capital e o preço relativo do investimento.

A poupança, por si mesma não consegue explicar o colapso na taxa de crescimento do PIB a partir de 1980. Embora fosse uma candidata óbvia para explicar o colapso da acumulação de capital, observa-se que pouca relação tem com este fato após 1980. Deve-se notar ainda que o comportamento da taxa de poupança no período de 1987-89 contraria a realidade econômica de um período turbulento, o que poderia apontar um erro na medida da poupança nominal, mas isto não é explorado neste texto.

O aumento do preço relativo do investimento é uma anomalia brasileira numa perspectiva mundial, observada sua relação. Seriam explicações: o aumento do poder oligárquico em indústrias produzindo tanto bens finais como bens intermediários de investimento; ineficiências no processo de produção de bens de capital, na medida em que cada vez mais bens previamente importados passaram a ser produzidos domesticamente; maior demanda por bens duráveis como forma de proteção contra a hiperinflação e os riscos de moratória financeira; comportamento defensivo de preço dos oligopolistas, em face de atrasos no pagamento das compras governamentais em um cenário de aceleração da inflação; e erro na medida de índices de preços, por superestimativa do aumento dos preços no período hiperinflacionário. Estes fatores influenciaram diferentemente nos diversos períodos, sendo os dois primeiros mais perceptíveis até o início dos anos 80 e os demais mais fortemente após a inflação ter saído de controle. O último fator é sugerido por não ter havido diferença substancial dos índices após 1994.

Em relação ao declínio da relação produto-capital utilizado no Brasil, existem três hipóteses plausíveis: ineficiência no processo de substituição de importações; tendência mundial de aumento da intensidade do uso do capital; e ajustamento de longo prazo a uma taxa de poupança mais elevada. Quanto à primeira, observa-se o processo altamente protegido, acompanhado de um padrão de industrialização oligopolista com forte presença de empresas públicas, expressa uma correlação negativa entre o capital-em-uso e o preço relativo do investimento. A segunda se percebe da sobreposição das relações produto-capital Brasil e no Mundo, sendo sempre menor para o país. A terceira é confirmada pelo modelo de Solow-Swan, sugerindo o mergulho do crescimento iniciado ainda na década de 1970, tendo levado 19 anos para fechar a metade do hiato entre o capital-em-uso observado e seu correspondente valor de equilíbrio estacionário.
O último componente da explicação para a frustração do crescimento brasileiro é um declínio no grau médio de utilização da capacidade. Parece que a partir dos anos 80, a economia brasileira foi incapaz de retomar um estado de plena utilização da capacidade. Isto não poderia ter ocorrido por falta de demanda efetiva, pois é sabido que houve uma forte demanda doméstica que acelerou tanto o processo inflacionário como o de endividamento externo. Como explicação, aponta-se: o aumento das taxas requeridas (tanto de retorno do capital como taxa de juros) pela seqüência de moratórias; o aumento de impostos a partir dos anos 90; e a Constituição de 1988 e as decisões legislativas e judiciárias subseqüentes que agravaram a precariedade do sistema de regulação econômica e as incertezas sobre as relações contratuais.

Parece ser a principal razão da depressão na acumulação de capitais nos vinte anos anteriores o aumento do preço relativo do investimento, reduzindo fortemente o poder de compra da poupança, reparando-se que esta foi uma peculiaridade brasileira, provavelmente relacionada ao isolamento econômico pós-1974. Deve-se observar ainda que, no período posterior a implantação do Plano Real, a contribuição do trabalho bruto é pequena, associado principalmente a uma reduzida absorção de mão-de-obra, explicado pelo não acompanhamento do ritmo de acumulação de capital ao progresso técnico, gerando, portanto, menos oportunidades de emprego.

Por fim, ressalta-se que as conclusões sobre o potencial de desenvolvimento brasileiro variam de acordo com o modelo utilizado, mas é certo que na medida em que a inflação convirja para a meta de longo prazo do governo, haverá espaço para um crescimento liderado pela demanda. Impacto importante poderia ter uma maior abertura para a importação de bens de capital, juntamente com políticas pró-concorrência. De toda a maneira, até que o Brasil consiga desenvolver um mercado de capitais de longo prazo, a necessidade de empréstimos em dólares não deve desaparecer, observando-se ainda a necessidade de redução das incertezas jurisdicionais para o incentivo ao crescimetno.


BACHA, E.L. e BONNELI, R. “Uma interpretação das causas da desaceleração econômica do Brasil” Revista de Economia Política. 253 jul/set 2005.

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01 Março 2008

Resumo: Brazil 1950-1980. Three Decades Of Growth – Oriented Economic Policies”

O texto de Malan e Bonneli, publicado no início da década de 1990, analisa o período da economia brasileira compreendido entre as décadas 1950 e 1980 e objetiva estabelecer as razões pelas quais se processaram as transformações ocorridas no período. Transformações que proporcionaram desempenho surpreendente da economia, caracterizado por crescimentos anuais médios de 7,4% do PIB e de 4,5% da renda per capita, mas que não conseguiu ser mantido na década seguinte.

Os cenários sócio-econômicos separados por estas três décadas contrastam sobremaneira. O tamanho da economia brasileira praticamente decuplicou em relação ao PIB. A sociedade agrária na qual dois terços da população viviam em áreas rurais, seis em cada dez estavam empregados no setor primário – que representava um quarto do PIB e 90% das exportações das quais 65% eram referentes a café – contrasta com a com a sociedade de população duas vezes e meia maior na qual um em cada dois brasileiros vivia em cidades com mais de vinte mil habitantes, um em cada quatro estava empregado na indústria – que representava 60% das exportações, contrariamente aos doze do cenário anterior – e na qual o setor terciário representava mais de 45% do PIB. Por outro lado, os indicadores sociais continuaram extremamente ruins. Enormes diferenças regionais se apresentavam, sendo os níveis de mortalidade infantil da região nordeste em 1980 piores que os níveis já encontrados na região sudeste em 1950. Embora a taxa de analfabetismo tenha sido reduzida de 52% para 25%, a evasão escolar impressionava até em relação países em desenvolvimento, pois a entrada no estudo secundário era nove vezes menos que na educação primária. Todas estas transformações foram dispostas em seis períodos econômicos.

No período de 1946 a 1950, de incertezas do pós-guerra, a política econômica brasileira foi fortemente influenciada pela balança de pagamentos. A dificuldade de acesso ao financiamento internacional, que se voltou para a reconstrução européia, reforçou a cautela em relação à taxa de câmbio. O câmbio fora fixado em níveis anteriores à Guerra o que reforçava sua sobrevalorização, o que valorizava a exportação do café. A política de racionamento de importações aplicada favoreceu fortemente a indústria nacional na medida em que priorizava a pauta tradicional e reduzia a prioridade do produzido internamente, gerando uma dupla proteção ao mercado nacional. Dificuldades políticas impediam aumentar a efetividade da política fiscal, assim, o financiamento através da inflação se tornou a única alternativa viável. É um período de transição entre as dificuldades da Guerra e o medo de uma crise no comércio internacional.

O período de 1951 a 1962, de crescimento e desequilíbrio, iniciou com um temor de um novo conflito mundial o que diminuiu as barreiras de importação e gerou um problema de endividamento de curto prazo que duraria toda a década. Por outro lado, medidas pouco liberais tomadas pelo governo Vargas geraram fortes reações do Departamento de Estado e do Banco Mundial não fazendo novos empréstimos para o Brasil o que duraria até 1965. Com a reconstrução, a necessidade européia de exportar se juntou à necessidade dos países semi-desenvolvidos de importar maquinário e equipamentos o que seria feito com empréstimos de curto prazo e taxas de juros elevadas. Políticas desenvolvimentistas em que governantes deixavam para seus sucessores a tarefa de fazer os ajustes necessários foram responsáveis por uma taxa de crescimento industrial admirável sob condições externas adversas.

O período de 1963 a 1967, de mudança institucional e continuidade estrutural, iniciou com o avanço da inflação devido a falhas no estímulo da demanda interna a taxas ainda desconhecidas. A instabilidade política proporcionava medidas econômicas sem coerência entre si. A assunção do governo pelos militares em 1964 – que duraria por 21 anos – foi um marco político relevante na história brasileira. Por outro lado, por uma visão estritamente econômica e estrutural, os governos militares continuaram a política desenvolvimentista, associada ao uso intensivo do capital e de investimentos externos, do governo JK, caracterizando o período pós-64 como de continuidade estrutural. As crises fiscais e o desequilíbrio financeiro foram combatidos com relativo êxito com a reforma tributária de 1965 e com o refinanciamento da dívida e tomada de novos empréstimos, com algum patrocínio EE. UU. ao novo regime. Diversas ações realizadas aumentaram a eficiência e modernizaram o aparato estatal. A indexação da economia foi usada como forma de evitar transferências entre setores e minimizar efeitos da inflação, salvaguardando a receita real dos exportadores, os recursos de investidores e poupadores e as receitas fiscais.

O período de 1968 a 1973, de euforia do crescimento econômico, teve um desempenho impressionante se considerados os índices convencionais. O “Milagre Econômico” foi o grande legitimador do governo militar neste período e, assim, perdurou-se a visão desenvolvimentista, pois teria pouco apoio uma política econômica contracionista que poderia criar dificuldades políticas num cenário de recessão. Foi o momento do boom industrial que se preparou anos antes. Uma política de incentivos e subsídios à exportação proporcionou uma balança de pagamentos favorável que possibilitou importação de materiais e bens de capital. A expansão do crédito para a aquisição de bens duráveis, o aumento da renda e sua concentração foram responsáveis pelo aumento da produção deste tipo de bem. A abertura da economia brasileira foi derivada de um cenário mundial favorável: o comércio e a movimentação de capitais internacionais, estimulados pelo retorno europeu a convertibilidade após 1959 e japonesa após 1964, cresceram a uma média de 18% ao ano. O Brasil se beneficiou pela atração de investidores internacionais em virtude de seu potencial grande mercado consumidor ocidentalizado e uma legislação favorável ao capital estrangeiro existente desde a II GM. A política econômica do período teve sucesso em virtude do ambiente externo favorável ao alto nível de gastos e ao crescimento da produção.

O período de 1974 a 1980, de crescimento e queda do ajuste estrutural da dívida, inicia-se com uma tentativa de resposta ao choque do petróleo através de um plano desenvolvimentista (II Plano Nacional de Desenvolvimento) que buscaria a completar o processo de substituição de importações. A dependência em relação à importação de petróleo (80%) tornou o Brasil mais vulnerável a choques internacionais e o aumento da dívida externa seria um preço a ser pago para financiar o aumento da independência da economia brasileira através do plano. O financiamento do déficit da conta corrente se dava através da conta de capitais e o crescimento se dava através do aumento do endividamento a partir do crédito internacional privado disponível aos países em desenvolvimento. Para os analistas mais otimistas, o ajuste brasileiro estava quase completo ao final de 1978.

O período seguinte ainda citado se refere ao final do crescimento rápido e sustentável da economia brasileira. O segundo choque do petróleo, de 1979, com a seguinte duplicação das taxas de juros internacionais nos dois anos seguintes, associados com a recessão do biênio inicial da década de 80 gerada pela política da OCDE foram o marco final da experiência das três décadas de crescimento. A crise na balança de pagamentos fez o setor público perder, mais uma vez, a capacidade de exercer um papel mínimo de coordenação. Desde então, o Brasil foi incapaz de se adaptar às novas formas de intervenção do setor público e de captação de recursos externos, de forma que perdeu o governo sua capacidade de investir, restando a necessidade de uma nova reestruturação do sistema fiscal e a necessidade do refinanciamento de uma imensa dívida através de recursos financeiros externos.

Os autores concluem, por fim, que a esperança brasileira estava na transformação do agravamento da crise em concentração de esforços para a sobrevivência econômica do país. Reconhecem ainda a existência de esforços do governo e da sociedade em corrigir os erros cometidos e que estes esforços deveriam se repetir a fim de consolidar a democracia e uma economia aberta e moderna.

MALAN, P. & BONNELI, R. “Brazil 1950-1980. Three Decades Of Growth – Oriented Economic Policies”. Rio de Janeiro: IPEA, mar 1990. (Textos para Discussão Interna n.º 187)

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07 Dezembro 2007

Nota de rodapé: Sistema de metas para a inflação

Em virtude do amplo universo de destinatários desta lista de emails e, em especial, em função do debate cujo assunto é “Monetaristas vs Desenvolvimentistas”, creio ser pertinente uma “nota de rodapé” sobre as atribuições referentes ao sistema de metas para a inflação, instituído no Brasil em 1999.*

O Conselho Monetário Nacional (CMN), que é o órgão deliberativo máximo do Sistema Financeiro Nacional, é composto pelo ministro da Fazenda (seu presidente), pelo ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão e pelo presidente do Banco Central (Bacen). Ao CMN cabe estabelecer as metas para inflação com antecedência de dois anos, ou seja, em 2007 foi definida a meta para 2009 (a debatida meta de 4,5%). Importante relembrar que, além da meta - que têm como índice de referência o IPCA - também é fixado pelo CMN um intervalo de tolerância. Ultimamente, este intervalo tem sido fixado em 2p.p. para mais e 2p.p. para menos. Assim, a meta seria uma inflação entre 2,5% e 6,5%, sendo o centro da meta o índice de 4,5%.

Ao Bacen, por sua vez, cabe perseguir a meta de inflação determinada pelo CMN o que é operacionalizado, principalmente, através do estabelecimento das metas para a taxa Selic. Isto é feito nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), composto pela diretoria colegiada da Autarquia.

É o histórico das metas de inflação no Brasil: 1999 (8%); 2000 (6%); 2001 (4%); 2002 (3,5%); 2003 (3,25%, alterado posteriormente para 8,5%); 2004 (5,5%); 2005 (4,5%); 2006 (4,5%); 2007 (4,5%); 2008 (4,5%) e 2009 (4,5%).

* comentário enviado à lista economiapolitica_brasil

30 Novembro 2007

Bolívia e Venezuela são bons para o Brasil?

As irresponsabilidades bolivianas já vêm sendo observadas há tempos.

Desde o caso “Petrobrás”, por longo período o governo brasileiro tem mantido sua paixão ideológica pela revolução popular e se distancia do pragmatismo que seria exigido de um país que poderia (ou deveria) ter algum pensamento estratégico em sua região, seja por interesses de garantir uma liderança regional, seja por interesses de se manter em uma vizinhança com relativa estabilidade. Independentemente das ideologias sociais e políticas envolvidas, a Bolívia de Morales e a Venezuela de Chavez não são boas para o Brasil pelo simples fato de não permitirem a previsibilidade requerida ao relacionamento entre países.

Deve o Brasil abandonar a sua doce inocência e iniciar a pensar estrategicamente o que é bom para o país, não para ideologias.

Em comentário a Brasil está fascinado com desastre boliviano de William Waack

01 Abril 2007

Que país é esse?

Acabamos de ver o governo Lula se curvar a militares grevistas, a amotinados. O que se pode esperar do futuro da solidez de uma instiutição baseada constitucionalmente na hierarquia e discipliana (CF, art 142). Pode parecer, os olhos de um leigo, um exagero, um despotismo. Mas não o é.
Ao desautorizar a prisão do militares grevistas, esteve em jogo algo mais do que a manutenção da credibilidade do sistema aéreo brasileiro: questionou-se a instituição militar e a legalidade. Ao buscar uma via de força para terem seus anseios atendidos, os militares incorreram em tipo legal definido pelo art. 149 do Código Penal Militar (CPM, Dec-Lei 1.001/69).

Motim
Art. 149. Reunirem-se militares ou assemelhados:
I - agindo contra a ordem recebida de superior, ou negando-se a cumpri-la;
II - recusando obediência a superior, quando estejam agindo sem ordem ou praticando violência;
III - assentindo em recusa conjunta de obediência, ou em resistência ou violência, em comum, contra superior;
IV - ocupando quartel, fortaleza, arsenal, fábrica ou estabelecimento militar, ou dependência de qualquer dêles, hangar, aeródromo ou aeronave, navio ou viatura militar, ou utilizando-se de qualquer daqueles locais ou meios de transporte, para ação militar, ou prática de violência, em desobediência a ordem superior ou em
detrimento da ordem ou da disciplina militar:
Pena - reclusão, de quatro a oito anos, com aumento de um têrço para os cabeças.


Não se trata de uma visão arcaica. Trata-se de uma norma em vigor que é fundamental para garantir a estrutura militar. Não questiono neste momento a forma ou se o comando aéreo deve ser civil ou militar. Observo apenas a forma como se desenvolveram as ações.
A disciplina militar não é necessária senão para a manutenção da própria instituição. Quando ordens não são cumpridas, obediência é recusada, salas de controle aéreo são ocupadas não se pode esperar nada além do que a prisão imediata e a instrução do devido processo legal. Caso contrário, o problema é inviabilizar a instituição militar.
Ao desaparecer a autoridade militar em um ambiente de controle aéreo civil em tempo de paz que é uma atividade essencialmente administrativa, pode-se não perceber o ruptura que pode significar a diferença entre a vida e a morte destes mesmos sargentos em um campo de batalha. Ao questionarem suas ordens podem estar questionando a experiência que poderia salvá-los ou mesmo sacrificá-los em nome do cumprimento da missão. Não se pode esquecer que a vida militar é voltada para guerra. As Forças Armadas existem para evitar a guerra, mas a vida militar é essencialmente se preparar para entregar a vida em função dos interesses do país. Não se trata de drama hollywoodiano, é a essência.

Que sejam presos os amotinados! Mas também que sejam presos os responsáveis pelo caos no sistema aéreo! Que sejam responsabilizadas as autoridades que negligenciaram e permitiram o caos. Que sejam responsabilizados aqueles que utilizaram os recursos públicos com coquetéis e pintura do chão (!!) para cerimônias e formaturas ao invés de investir em equipamentos e condições de trabalho. Que sejam responsabilizados todos aqueles chefes que fizeram cumprir o controle aéreo sem o cumprimento de normas internacionais e não questionaram ou fizeram relatar a situação de operação do sitema aéreo. Que sejam responsabilizados todos aqueles que ordenaram a operação aérea fora de padrões de mínimos de segurança.
Responsabilize-se, questione-se! Mas pela via legal, não em detrimento às Instituições.


http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2007/04/02/295182312.asp

31 Março 2007

Crise aérea

Retomo este blog após algum tempo. Estamos num momento extremamente delicado para o setor aéreo. Após seis meses vivendo a alternância entre o caos total e o caos no setor aéreo, surgem notícias de "greve" entre os controladores aéreos ou, para ser mais preciso militarmente, um motim entre estes servidores. Há quinze dias dormi num banco do aeroporto do Galeão: meu vôo, programado para às 19h 45min, só decolou às 03h. Este é um exemplo da situação que nos encontramos neste momento.
Não há mais credibilidade neste setor. Isto é ruim para os passageiros, é ruim para as empresas aéres e é ruim para todos aqueles que dependem do transporte aéreo, ou seja, é ruim para todos. Não existe pessoa que não seja dependente direta ou indiretamente deste meio de transporte. Encontramo-nos em uma etapa em que os atrasos já passam a ser considerados no nosso dia-a-dia. Os custos são crescentes tanto quanto a insatisfação. Passamos a dedicar mais tempo às viagens, isto signifia que aqueles obrigados a viajar saem mais cedo e esperam mais tempo no ócio criativo das salas de embarque; aqueles que não são obrigados, cancelam.
Ter menos credibilidade significa viajar menos, assim, um setor que se encontra em franca expansão, no qual há poucos dias foi anunciada a compra da Varig, após seu saneamento, pela Gol, pode sofrer cada vez mais e ver interrompida seu grande desenvolvimento. Em um país que ouvimos dever em desenvolvimento para seus pares, não podemos nos dar a esse luxo!
Se a infra-estrutura não acompanhou o crescimento esperado, não foi o setor que cresceu demais, foi o planejamento de infra-estrutura que foi subestimado, que não foi resvisto ou, simplesmente, não foi executado. Eu pago minha taxa de embarque. Onde está a contra-partida?
E os controlados aéreos, mocinhos ou vilões? Difícil definir sem que seja realizada uma apuração séria de responsabilidades. Seria a CPI uma apuração séria? Pode ser questionado, mas sem dúvida é uma apuração e isto ao governo não interessa: poderiam aparecer responsáveis. Se há responsáveis, têm que ser punidos. Sem dúvida não acredito ser justo o recebimento do mesmo salário por um controlador aéreo e um tocador de tuba da bandinha da aeronáutica. Responsabilidades tão distintas não podem ser retribuídas pelo mesmo valor. (Aliás, este foi um dos motivos pelo qual deixei a Marinha) Por outro lado, não pode a Instituição militar aceitar um motim em seu meio: não prender disciplinarmente ou penalmente por insubordinação pode ser mais uma rachadura profunda na credibilidade da disciplina basilar estabelecida pelo art. 142 da CF e fundamental para os estabelecimento da ordem militar. Não punir pode significar uma injustiça com os que cumprem os preceitos constitucionais. Na impossibilidade de demitir, de descontar salários, só resta a "prisão".
Não faço apologia ao não questionamento das fraturas do sistema aéreo, entretanto, não será quebrando as bases de um Instituição que se consertará o sistema. Tão possível quanto a falta de dinheiro para a manutenção do sistema aéreo, parece-me que o mal em prego das verbas existentes (até mesmo com destinação específica) em outra "prioridades" não tão prioritárias possível. Aliás, esta última me soa mais provavel. O descaso institucional do sempre foi assim, o costume de se continuar trabalhando quando as condições não são mais as mínimas exigidas, o famoso jeitinho, o "safa" levaram a esta crise. Gestores e executores são todos culpados e inocentes. Aqueles por não fazerem, estes por não exigerem ser feito: mas não é o motim o instrumento apropriado.
Solução? Há. Resolva-se o problema e depois apure-se a responsabilidade. Ambas são fundamentais. A segunda para o futuro, a primeira para o presente. Tão pouca ação vemos. Existe alguém no leme deste país?
Ainda bem continuarei em Brasília este final de semana... mas um dia vou querer voar...

23 Abril 2006

"Os outros podem pensar o que quiser..."

Vou iniciar este blog assumindo: eu assisti ao programa do "Faustão"! Atraído pela entrevista do TC Marcos Pontes, assisti tal "expressão cultural" e acabei por encontrar o primeiro tema deste blog.

Ao escutar o comentário do astronauta brasileiro sobre os críticos de sua missão, não posso me conter em comentar. "Os outro podem pensar o que quiser, o que importa é que aconteceu." não me parece um pensamento que considere todo o contexto de sua missão. Não vou considerar o mérito da missão "Centenário" neste momento. Questiono, entretanto, a forma com que se expressou o astronauta o qual representava a Agência Espacial Brasileira - AEB.

Deve-se considerar que a AEB é uma autarquia - portanto, um órgão da Administração - e não um ente privado. Por conseguinte, a AEB executa política públicas e suas ações devem ser orientadas em conformidade com o Estado democrático e objetivando o interesse público.
Diz a Lei Maior que "Todo o poder emana do povo". Neste povo estão incluídos - além daqueles sempre lembrados, como os alvos do "Fome Zero" - todos, da comunidade científica ao jogador de futebol. Não considerar o ponto de vista alheio leva-nos à completa ignorância.

Ter acontecido ser fato é inquestionável, mas desconsiderar, ou mesmo descreditar, a opinião diversa contraria duas importantes questões. Em primeiro lugar, devemos lembrar que é do confronto de opiniões diferentes que podemos crescer, que podemos criar algo novo. Em segundo lugar, não podemos esquecer que um órgão público não pode jamais se distanciar do fim público e estar sempre pronto a incorporar a opinião de seus verdadeiros acionistas.

Reitero que não discuto, neste momento, a validade da missão "Centenário". Expresso minha opinião sobre a divulgação de uma posição um tanto inapropriada para uma Instituição em um Estado democrático.